quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O golpista

Há um mês assisti o filme "9 Reinas" (http://www.imdb.com/title/tt0247586/) baseado na realidade de Buenos Aires-Argentina sobre pessoas que vivem as suas vidas para aprender a trapacear os outros. E descobri que há pessoas que estudam as várias maneiras de sabotar os outros pobres e leais trabalhadores. Elas ficam muito boas e espertas nisso, elas têm toda uma técnica de truques e a habilidade vai progredindo até serem praticamente desapercebidas em suas tramóias. Um exemplo mostrado no filme é o de um cara que entra numa loja de conveniência para comprar uma coisinha pequena, ele paga com uma nota alta e faz a pessoa do caixa se confundir com o troco de modo que o comprador sai da loja com muito mais dinheiro do que entrou. Outra, é tocar os interfones dos apartamentos de um condomínio dizendo: oi tia!!!! e ir tentando um apartamento após o outro até que a pessoa responde: oi meu subrinho querido, que saudades. Daí o dito sobrinho inventa uma história dizendo que precisa de dinheiro, mas que estacionou o carro num lugar proibido e vai pedir para o amigo subir. Daí a "tia" abre o portão e entrega o dinheiro para o amigo, às vezes bem mais do que foi pedido pelo querido "sobrinho". Porque existem pessoas boas e muitas confiam nos outros, mais do que deveriam.
Sexta-feira da semana passada eu acabei me recordando do filme...
Foi assim, um homem entrou na sala de bateria onde meu pai estava dando aula, nos fundos de nossa casa dizendo que morava no prédio em frente (prédio chiquérrimo por sinal) e queria marcar um horário para seus 2 filhos. Ele disse que os filhos tinham 9 e 12 anos, um garoto e uma menina. Coincidentemente bem naquele momento meu pai dava aula para um casal de irmãos com a mesma idade dos filhos dele.
Meu pai seguiu dando aula e o homem ficou ali do seu lado, fazendo mil perguntas. Meu pai acreditando ser um cliente em potencial, respondeu gentilmente as perguntas, apesar de estar trabalhando.
O casal de alunos foi embora e a próxima aula seria na sala da frente. Meu pai passou por dentro de nossa casa e o homem simplesmente o seguiu, entrou assim ousadamente dentro de nossa casa continuando a fazer perguntas, entre elas se o cachorro pitbull que temos é brabo. Ele disse que a empregada prendeu ele do lado de fora, por isso ele teve que ficar ali esperando. Uma hora ele até gesticulou algo para o síndico do prédio (que não entendeu nada, lógico). Mas tudo fazia parte da encenação dele para que meu pai realmente acreditasse que ele morava no prédio chique em frente.
Enfim, baseado nas respostas de meu pai, descobriu que meu pai estava no processo de querer se aposentar. O homem então disse que sua mãe era dona da Schwanke e que ele há 10 anos trabalhava no INSS. Disse que estava fazendo as aposentadorias de colegas que trabalhavam com meu pai há 20 anos atrás, inclusive citou o nome de cada um deles. Ele então se ofereceu para fazer a aposentadoria do meu pai. E meu pai achou estranho que ele faria assim de imediato, sendo que ele sabia que teria que pagar pelo menos mais 10 anos de parcelas para poder se aposentar. Mas ele disse que conseguiria, porém tinha que ser naquele dia porque só assim ele ainda poderia incluir a aposentadoria do meu pai nas que ele já estava fazendo. E disse que ficariam todas prontas no próximo dia-útil. Ele até pediu para usar o telefone para confirmar com sua secretária se seria mesmo possível incluir. Ele ligou e ela respondeu que sim, desde que fosse naquele dia. Meu pai perguntou quanto custaria, e ele disse: -não, não te cobraria nada. A única coisa que precisamos fazer é passar no cartório para pagar uma taxa de R$ 185,00. E perguntou se meu pai tinha o dinheiro. Meu pai disse que em dinheiro não, mas poderia pagar em cheque ou cartão. E o homem disse que não poderia ser pago de nenhuma outra forma, se não em dinheiro. Então a idéia era eles dois saírem com o carro do meu pai, uma vez que ele estava tracado do lado de fora do prédio sem chave para buscar seu caro. E iriam buscar o dinheiro no banco e então passar no cartório para pagar a taxa. E ele insistia que tinha que ser naquele dia. Meu pai tinha alunos e não podia sair assim derepente, ele até pediu para que minha mãe fosse no cartório com o cara, minha mãe não aceitou. Aí pediu para que eu ficasse lá na sala com os alunos enquanto ele aproveitava a oportunidade única de finalmente resolver essa questão da aposentadoria dele. Mas felizmente, eu e a minha mãe tínhamos acabado de voltar da nossa caminhada diária, estávamos exautas e dissemos que ele não deveria abandonar seus alunos assim, pois essa história toda estava cheirando a encrenca.
Então finalmente, depois de muita insistência, o tal do homem desistiu e foi embora.
Alguns dias depois o mestre de obras da construção ao lado aqui de casa liga para o meu pai dizendo: -mas teu filho é um tratante, hein? Ele veio aqui sexta-feira querendo comprar meu fusca por R$ 5.000,00, disse que iria me pagar um lanche, daí ele disse que iria buscar o dinheiro com a irmã dele no estacionamento e ele não voltou mais, tive que pagar os R$19,00 do lanche dele (5 pastéis e um refrigerante 2 litros).
E meu pai disse: -meu filho? como assim? Meu filho até pensa em trocar de carro, mas com certeza não seria por um fusca!
E o mestre de obras confuso contestou: -mas ele disse que era teu filho, até saiu da tua casa, disse que morava com os pais e uma irmã (eu), disse que vocês tem um pitbull e que gravou um CD contigo (ele ficou sabendo do CD que meu pai gravou com meu tio e a minha vó através das mil perguntas que fez ao meu pai). Ainda antes de saírmos para a lanchonete, ele falou para tua esposa: "-mãe, estou saindo com ele, tá? já volto" (Minha mãe até ouviu isso, porém pensou que não fosse com ela porque seu verdadeiro filho (meu irmão) estava trabalhando neste horário-sexta de tarde).
Ele disse que queria comprar o fusca, porém queria que o mestre de obras levasse ele até a borracharia para colocar pneus novos. Quando o mestre de obras disse que estava sem gasolina para dirigir até a borracharia, e que não tinha dinheiro para abastecer, nem cheque, nem cartão nem nada, o homem convidou-o para jantar dizendo que pagaria um lanche, mas sumiu deixando a conta por pagar. Claro, pois estando sem dinheiro ou cartão de crédito, percebeu que não iria ter chance de ganhar nada com ele.
O mestre de obras ainda estava o esperando para comprar seu fusca. Mas felizmente, o prejuízo no final de contas nem foi tão grande. (apenas uma janta)
É, foi tudo história de golpista safado. Provavelmente o que ele queria era levar meu pai no banco para embolsar o dinheiro que ele sacaria no caixa rápido.
Eu até estava esperando curiosa pelo dia em que os ditos filhos dele teriam aula com meu pai- quarta-feira à 13:45. Mas obviamente ninguém apareceu, e nem vai aparecer.
Como diz meu pai, isso foi um alerta para tomarmos mais cuidado na hora de passar tantas informações e não deixar qualquer um entrar em nossa casa assim.
E eu que pensei depois de assistir o filme: -meh, esses argentinos. Argentinos que nada! Mas na verdade, existe golpista argentino, jeitinho brasileiro, americano arrogante em tudo que é país!

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